domingo, 2 de janeiro de 2011
g-n
Você começou a nascer no dia que me dei um presente. E agora desanda desanda e nada estanca. Escrevo na parede de pedra. Texto.Teso.Tudo. e logo saio. O alívio ocupa o que me aflige. Chego em casa às quatro. No armário café , pão e queijo. O relógio de ponteiro parado às doze. Mudo como a sala. escrevo escrevo escrevo e nada pára. Meu Deus não pára. Na mesa o caderno guarda todas as palavras. à lápis , caneta São muitas e estão soltas. Folhas agora marcadas por palavras palavras palavras Guardei pra você por todos esses anos. A boca sem voz. Aqui ao lado da sua cama procuro seu lábio. Desenho com o dedo o sorriso que me lembro. E me levo ao jardim onde brincava. E rodava rodava rodava quando a vida nada me custava. Só soava e se anunciava. Um mar de palavras palavras palavras.
n-g
IIIsigo desprovido de gritopara casa de pedra em petrópolissob som que soe leve led zeppelinmarquei uma visita nessa tarde de sol
casaco chapéu e um chá
bati a porta e quem me abriu a casa
de nada me lembrava o passado
visitei sua imagem nua e agora a gente ali
se passaram tantos anos e esse silêncio por
todos os lados
IVtento relembrar por fimse o paraíso era um lugar só euouse o paraíso era um lugar sem mim
te esperei dias parada sentadacaderno abertodias de vigíliasem sono nem proventoste esperei a beira do riosem hinomaculei sua lembrança lívidaplanejei seus diasplantei seus saboresacordei para mais um dia
n-g
e agora eu andava de bicicleta pelo aterro fechado. tinha havido uma dessas corridas patrocinadas, com tendas, carros de som e bonés. numa das curvas mais arborizadas, vi de longe centenas de copos dágua, usados, espalhados pelo asfalto. pareciam frutos falsos que as árvores tinham deixado cair. era um pedaço plastificado de outono dentro desse verão todo. agora a mágica: pelos fones de ouvido, vinha fake plastic trees (do radiohead).
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De tudo que vi em um dia
brotava em pedaladas
tendas
sons e rostos
e agora aqui e ali
só jaziam restos de
uma festa anunciada
sacos de passado inglório
denúncia de dias
indóceis
buscava o sossego
onde tudo já era seco
e o desassossego brotava
fake plstic trees
g-n
O RENASCER
QUERIA NESSE RASGO DE TEMPO TE MANDAR NOTÍCIAS AQUI DE ALÉM MAR.
DE TUDO QUE ACONTECEU.
DO TEMPO QUE TEIMA EM SEGUIR IMPIEDODO SEGUNDO APÓS SEGUNDO DEIXANDO MINHAS LEMBRANÇAS PÁLIDAS.
TENHO ANOITECIDO DIARIAMENTE E O QUE ME RECORDO JÁ ME PARECE UM FUTURO PRÓXIMO. UM PRETÉRITO.
PREPAREI UMA CARTA DETALHADA.
QUERIA TE CONTAR O DIA-A-DIA E O QUE SE OCUPOU NO VAZIO QUE A SUA AUSÊNCIA CAUSOU , QUAL UM NAVIO APÓS NAUFRAGAR.
PRECISEI CONSTRUIR UM CASTELO DE PEDRA E SOLTAR VÁRIAS AMARRAS NA ESPERANÇA DE PODER RESPIRAR AGORA LIVRE.
PRECISEI SOFRER CADA DOR QUE CADA LÁGRIMA ME COBRAVA.
PRECISEI DE TUDO ISSO PARA RENASCER MUDA,NUA,SUJA MAS APENAS DO QUE PERTENCE A MIM
MESMA.
e insisto: é empurrando ao pretérito o pé que o passo leva o corpo ao futuro próximo.
ren-reg
o abajur dormiu aceso e acordou de ressaca.
agora ela virava de lado e
dava de cara com a noite anterior
e estava tudo
ali
pálido , ávido
sem cor
quisera esticar o dedo firme
assim e encostar nessa luz que
perturba
para acabar de vez com essa
vigília
aflitiva
Conversas 1 reg-ren
E se eu olhar sua foto bem de fundo
assim
hei de te enxergar brotada na minha aorta
cravejada no peito
e se eu esboçar minha saudade
hei de ouvir seu sussurro ali no
meu córtex , ali onde o silêncio
ecoa
e quieta assim num
canto espalmo a mão no
ouvido
até perceber a vibração
que brilha como água
só da sua lembrança
pálida
seu som
se triste eu ficar assim de tanta
saudade eu hei de ouvir sua
voz aqui dentro
quieta muda
aqui no delírio da minha
loucura
precipício de tudo que me
precipício de tudo que me
compõe
aqui onde seu sopro ainda brilha
E se eu olhar sua foto bem de fundo
E se eu olhar sua foto bem de fundo
assim...
foi então que descobri. chegando enfim ao passado, depois de tantas tontas tentativas, só me esperava lá o que era sólido. só o que de fato era fato, e me assustei com o tão pouco. daí a descoberta: o que era bom era o que estava fora do contorno dos fatos, o que se iludia, o que era gasoso. os mil sonhos plenos da certeza de que viriam em outros verões como aquele (ah, sim: esse dia a que voltei ficava num verão). isso é que faz a memória vibrar feito brilho de água. isso é que preenche o dia presente - o gás em torno dos fatos tão poucos. isso é que dará em outras saudades, que venham.
só o que tenho perdi
o que anseio permanece por aí
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